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IA na escola exige projeto pedagógico, não só novas ferramentas

Em conversa no Arco Day, os professores Luciano Meira e Celso Camilo debateram como a inteligência artificial deve estimular escolas a reverem práticas, formação docente e modelos de gestão sem perder de vista as relações humanas


por Ana Luísa D'Maschio 16 de junho de 2026


A inteligência artificial já está na rotina escolar, impulsionada mais pelo uso espontâneo de estudantes e professores do que por uma estratégia pedagógica estruturada. Segundo a TIC Educação 2024, sete em cada dez estudantes do ensino médio usuários que utilizam a internet recorrem à IA generativa para tarefas escolares, mas apenas 32% afirmam ter recebido orientação sobre como usar essas ferramentas.


Esse descompasso pautou a conversa entre Luciano Meira, conselheiro do Porvir e professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), e Celso Camilo, professor da UFG (Universidade Federal de Goiás), durante o Arco Day, evento que reuniu mais de 2 mil gestores escolares em São Paulo (SP).Relembre as matérias do Arco Day 2026:Escuta, empatia e boas perguntas: o que o autor de ‘O poder do hábito’ propõe para a escolaConheça Esther Wojcicki, a professora que transformou confiança em método de ensino


Celso Camilo e Luciano Meira conversam com Vitor Margato, vice-presidente de Produto e Tecnologia da Arco Educação. Crédito: Aline Ramos
Celso Camilo e Luciano Meira conversam com Vitor Margato, vice-presidente de Produto e Tecnologia da Arco Educação. Crédito: Aline Ramos

Mais do que digitalizar rotinas


Para Luciano, muitas escolas limitam-se a acelerar tarefas tradicionais com a IA em vez de transformar suas práticas. “Estamos diante de uma nova infraestrutura de raciocínio. Mas ainda não nos reorganizamos radicalmente para aproveitar a tecnologia como parte de uma transformação digital profunda, e não apenas como uma forma de digitalizar processos que já existiam”, afirmou. 

Nesse processo, a resposta das instituições não pode depender apenas de iniciativas individuais. Para que a IA seja incorporada com intencionalidade pedagógica, sugere o professor, é preciso investir em formação docente continuada e mapeamento das competências digitais dos educadores.

O professor cita como ferramenta de apoio o Autodiagnóstico de Saberes Digitais Docentes, iniciativa do MEC (Ministério da Educação) que apoia professores da educação básica no uso pedagógico das tecnologias digitais. A ferramenta permite que docentes identifiquem seu nível de proficiência digital e suas necessidades de formação.

“Inovação não é uma tecnologia. Inovação é principalmente a mudança de comportamentos dentro de um ecossistema, dentro de uma cultura. Portanto, toda a cultura tem que mudar”, afirmou Luciano.

Celso Camilo seguiu na mesma direção. Professor da UFG e da Carnegie Mellon University (Estados Unidos), ele foi responsável pela criação do primeiro bacharelado em inteligência artificial do Brasil. Para ele, a IA não deve ser vista como uma novidade isolada, mas como parte de uma sequência de transformações que mudam a forma como as pessoas vivem, trabalham e aprendem.

“A gente é uma sociedade pré-eletricidade e pós-eletricidade. A gente é uma sociedade pré-computação e pós-computação. A gente é uma sociedade pré-IA e pós-IA. Então, não cabe somente falar de computação. Tem que se falar de transformação. Eu costumo dizer que a transformação digital é muito mais sobre transformação do que sobre digital.”


Possibilidades e riscos do uso da IA

Na escola, a tecnologia surge como aliada na personalização do ensino, desde que mantida a mediação docente. Para Celso, a tecnologia pode ajudar o professor a acompanhar melhor as necessidades de cada estudante, especialmente em turmas numerosas.

“Eu entro em uma sala de aula com 40 alunos. Qual é a chance de eu tocar individualmente cada aluno? Muito pequena. Cabe ao professor esse esforço, quase essa missão de tentar individualizar. Mas não seria interessante o próprio sistema assumir essa responsabilidade de criar modelos mais individualizados, de falar em personalização, em hiperpersonalização?”, questiona.

Ao mesmo tempo, Celso alerta para um risco recorrente: usar a tecnologia apenas para chegar mais rápido à resposta. Quando isso acontece, o estudante pode até entregar uma atividade correta, mas deixa de desenvolver raciocínio, autonomia e capacidade de resolver problemas.

“O grande problema é que essa pressa pela produtividade está forçando a gente a buscar atalhos. Esses atalhos de curto prazo levam a gente a buscar somente o resultado, não o processo”, afirmou.

Por isso, a alternativa não consiste em proibir o uso da IA, mas em orientar estudantes e professores a usá-la de forma consciente. Em vez de entregar respostas prontas, a tecnologia pode funcionar como parceira de aprendizagem, ajudando o aluno a formular perguntas, revisar caminhos e chegar às conclusões com mais autonomia.

Luciano também reforçou que aprender envolve esforço, hesitação e capacidade de voltar atrás, experiências que não podem ser simplesmente delegadas a sistemas automatizados.

“A aprendizagem exige esforço. A aprendizagem é um ato de tensão cognitiva, de curiosidade, de se lançar ao desconhecido. Esses sistemas não aprendem de formas humanas. Você pede qualquer coisa a um grande modelo de linguagem, não há hesitação. Mas nós hesitamos. E hesitar é um fenômeno absolutamente fundamental para a aprendizagem: voltar atrás, perceber o erro.”

Crédito: Freepik


O que a IA não substitui

Celso Camilo resume que a escola do futuro precisa ser tanto tecnológica quanto acolhedora. “Não se trata de se tornar uma escola high-tech. Trata-se de se tornar uma escola high-tech e high-touch. Se eu não incrementar mais humanidade no processo, a gente vai continuar gerando humanos robotizados.”

Embora reconheçam a utilidade da IA, os especialistas afirmaram que a tecnologia é incapaz de substituir o núcleo da experiência educativa: a relação entre professores e estudantes.

Luciano reforçou a afirmação. “A IA ocupa uma fatia pequena do que nós somos. Portanto, fundamentalmente, é impossível substituir a força da construção de relacionamentos humanos dentro das instituições. Por isso, nós temos que apostar cada vez mais nos nossos professores e professoras.”


Governança para sair do improviso

Para sair do improviso, segundo Celso, a inteligência artificial deve integrar a governança das escolas, participando das decisões estratégicas das lideranças.

“Evento coloca você para cima, dá um monte de sugestões, um monte de ideias, mas aí vem a famosa segunda-feira. A realidade bate na porta, as urgências aparecem, e começa a dor: como é que eu vou implementar realmente? O que tenho orientado, de forma muito pragmática, é: trabalhe a governança dentro da escola.”

Luciano completou com uma recomendação aos gestores: reservar parte do tempo de liderança para pensar o futuro da escola, e não apenas responder às urgências do presente.

“Parem de apenas operar o presente. Reservem primeiro 10% do seu tempo para projetar futuros, depois 15%, depois 20%, e vão ocupando o tempo de liderança gradualmente com futuros possíveis e uma nova cultura de pedagogia e transformação da escola.”


 
 
 

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